RS registra 23 feminicídios em 2026 e autoridades alertam para necessidade de prevenção e mudança cultural

O Rio Grande do Sul registrava, até terça-feira (17), 23 feminicídios desde o início de 2026, um aumento de 47% em comparação com o mesmo período do ano passado, quando foram contabilizados 15 casos. Os dados fazem parte do Mapa do Feminicídio da Polícia Civil e acendem um alerta sobre a persistência da violência de gênero no Estado. Além das mortes, também foram registradas 61 tentativas de feminicídio entre janeiro e fevereiro, número 34% maior que o do mesmo período de 2025.

Em Santa Maria, embora não haja registro de feminicídios em 2026, oito mulheres foram mortas nos últimos sete anos. 

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Os dados fazem parte do Mapa do Feminicídio, ferramenta criada pela Polícia Civil para monitorar e analisar os casos registrados no Estado. O levantamento reúne informações sobre vítimas, autores, circunstâncias dos crimes e encaminhamento das investigações.

Para a delegada Elizabete Shimomura, titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), o cenário exige atenção permanente das autoridades e da sociedade. Apesar do aumento registrado no início do ano, Shimomura destaca que o trabalho conjunto das instituições tem contribuído para ampliar a proteção às vítimas e evitar um número ainda maior de mortes.

— Eu entendo que isso é fruto de um trabalho bem intenso de toda a rede: Brigada Militar, Polícia Civil, Ministério Público e Judiciário. Todos estão muito atentos e dando celeridade aos casos. Isso provavelmente se reflete nos números. Não adianta a vítima chamar a Brigada Militar e a Polícia Civil não fazer sua parte. Não adianta a Polícia Civil fazer o flagrante e o Judiciário ou o Ministério Público não darem andamento. Todos precisam atuar juntos - afirma.

Somente neste ano, até o dia 10 de março, a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) já registrou 235 ocorrências em Santa Maria. Desses casos, 86 resultaram em pedidos de medidas protetivas. Ao longo de 2025, foram contabilizadas 1.180 ocorrências na delegacia, das quais 452 tiveram solicitação de medidas protetivas.

Segundo Shimomura, no dia a dia de atendimento de ocorrências, a agilidade das instituições pode ser decisiva para evitar novas agressões. Ela cita um caso recente atendido durante um plantão policial.

— Uma vítima relatou que o ex-companheiro havia enviado uma foto de uma arma de fogo. Imediatamente, pedimos um mandado de busca. Na manhã seguinte, o Judiciário expediu a autorização e à tarde, uma equipe já estava cumprindo a diligência.

Para ela, essa rapidez impede que o agressor tenha a sensação de impunidade.

— Quanto antes encaminharmos os inquéritos, mais rápido o Judiciário pode agir. Quando o tempo passa, o agressor começa a pensar que “não vai dar nada”. Por isso a celeridade é essencial.

Maioria dos autores acaba presa

Delegada da Mulher, Elizabete Shimomura afirma que vítimas têm buscado mais ajuda hoje em diaFoto: Rian Lacerda (Diário/Arquivo)


Dados do Mapa do Feminicídio indicam que grande parte dos autores de feminicídio é presa após o crime. Segundo o levantamento, 68,4% dos agressores estão presos atualmente. Outros 10,5% são considerados foragidos. Há ainda 5,3% hospitalizados (geralmente após tentativas de suicídio), e 10,5% que morreram, em casos que incluem feminicídio seguido de suicídio.

Na região de Santa Maria, uma das estratégias de prevenção utilizadas pela Justiça é o monitoramento eletrônico de agressores.

— Hoje, temos 27 tornozeleiras ativas na região. Dessas, cinco são em Santa Maria e oito em São Pedro do Sul, que é a comarca onde mais se solicita esse tipo de medida — explica a delegada.

Desafio está também no comportamento dos agressores

Apesar das medidas de proteção, Shimomura afirma que um dos maiores desafios no combate à violência doméstica é lidar com o comportamento dos próprios agressores.

— Temos autores que já foram presos várias vezes pela Lei Maria da Penha. Às vezes com a mesma vítima, às vezes com novas companheiras.

Para ela, apenas a punição não é suficiente para romper o ciclo da violência.

— Se a gente não começar a tratar esses agressores, incluindo-os em grupos reflexivos, dificilmente vamos vencer essa batalha. A vítima precisa ser protegida, mas o agressor também precisa ser reeducado.

Violência está ligada à cultura machista

A delegada também aponta que os crimes de feminicídio estão diretamente ligados a uma cultura machista ainda presente na sociedade.

— Feminicídio nada mais é do que implementar aquela frase que aparece em muitas ocorrências: “se você não for minha, não é de mais ninguém”.

Essa lógica, segundo especialistas, está associada a uma visão de posse sobre a mulher dentro das relações afetivas.

Dados mostram perfil dos crimes

O Mapa do Feminicídio aponta que a maioria dos casos ocorre dentro de casa e envolve parceiros ou ex-parceiros das vítimas.

Entre os feminicídios registrados em 2025 no Rio Grande do Sul:

  • 78,8% aconteceram dentro da residência
  • 89,9% ocorreram em relações íntimas
  • 67,5% dos autores eram companheiros
  • 20% eram ex-companheiros
  • 95% das vítimas não tinham medida protetiva ativa no momento do crime.

RS lidera casos de feminicídio na R​egião Sul

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que o Rio Grande do Sul registrou 444 feminicídios entre 2021 e 2025, o maior número da Região Sul. No mesmo período, o Paraná contabilizou 429 vítimas e Santa Catarina registrou 272 casos.

Em todo o Brasil, 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior.

Ferramentas buscam ampliar proteção

Além da atuação policial e judicial, novas iniciativas têm sido criadas para fortalecer a rede de proteção às mulheres. Uma delas é o Mapa da Rede de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher, lançado pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul. A plataforma digital reúne informações sobre delegacias, promotorias, centros de referência, Defensoria Pública e serviços de assistência social.

No sistema, é possível pesquisar os serviços disponíveis por município ou comarca, com endereços e telefones atualizados.

Outra iniciativa é o Botão Lilás, lançado pela prefeitura de Alvorada. A ferramenta funciona dentro do aplicativo municipal e permite que mulheres acionem a Guarda Civil Municipal com apenas um clique, enviando sua localização em tempo real.

Inicialmente, o recurso está disponível para mulheres que possuem medida protetiva ativa, mas a expectativa é que seja ampliado futuramente para todas as moradoras da cidade.

A violência contra as mulheres em Santa Maria desde 2019:

2019
Feminicídios – 4
Tentativas de feminicídio – 4

2020
Feminicídios – 1
Tentativas de feminicídio – 5

2021
Feminicídios – 0
Tentativas de feminicídio – 3

2022
Feminicídios – 1
Tentativas de feminicídio – 9

2023
Feminicídios – 0
Tentativas de feminicídio – 2

2024
Feminicídios – 1
Tentativas de feminicídio – 7

2025 
Feminicídios – 1
Tentativas de feminicídio – 9

2026  (até fev)

Feminicídios  - 0 

Tentativas de feminicídio - 2

Total de feminicídios - 8

Fonte: Secretaria Estadual de Segurança Pública


As vítimas de feminicídio na cidade desde 2019

  • Quelen de Medeiros da Rosa, 30 anos, morta em 4 de março de 2019
  • Fernanda Mariâni Debus Hoffmeister, 22 anos, morta em 10 de março de 2019
  • Tainara da Silva de Aquino, 25 anos, morta em 9 de maio de 2019
  • Denise Monfardini, 33 anos, morta em 10 de novembro de 2019
  • Andressa de Borba Agnes, 25 anos, morta em 23 de março de 2020
  • Luanne Garces da Silva, 27 anos, morta em 9 de abril de 2022
  • Mariane de Souza Ravazi, 40 anos, morta em 9 outubro de 2024
  • Luciane dos Santos, 37 anos, morta em 1° de julho de 2025
Neste mês, um banco em homenagem à Luanne Garcez foi inaugurado na UFSM, instituição onde a jovem estudava antes de ser morta pelo noivo em Santa Maria, em abril de 2022.Foto: Vinicius Becker (Diário)



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Denuncie

  • Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180
  • Direitos Humanos – 100
  • Polícia Civil – 197
  • Brigada Militar – 190
  • Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher – (55) 3174-2252
  • Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Santa Maria – (55) 3222-8888
  • Ministério Público – (55) 3222- 9049
  • Defensoria Pública – (55) 3218-1032

Onde buscar ajuda em Santa Maria

Centro de Referência da Mulher

  •  Horário – De segunda a sexta-feira, das 8h ao meio-dia e das 13h às 17h
  • Endereço – na Rua Tuiuti, 1.835
  • Contato – (55) 3174-1519 e WhatsApp (55) 99139-4971

Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam)

  • Endereço – Rua Duque de Caxias, 1.159, Centro
  • Horário – Segunda a sexta, das 8h30min ao meio-dia e 13h30min às 18h
  • Contato – (55) 3222-9646 ou (55) 98423-2339

Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento

  • Endereço – Avenida Nossa Senhora Medianeira, 91
  • Horário – 24 horas (inclusive finais de semana e feriados)
  • Contato – (55) 3222-2858 / 190
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